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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

HAITI




Estou seco !
Não te consigo falar.
As imagens não se precipitam sobre a tua superfície branca.
Apenas me perseguem os quatro cavalos que romperam das entranhas da terra..
Nada mais senão os quatro cavalos. Apocalipse !
Peço aos olhos que se virem para dentro e procurem ainda
algum pequeno regato .
Mas não, já estou seco.
Saltam o vermelho, o negro e o baio,
o branco segue-os de perto...
E os dedos não se mexem
e a mão não tem coragem
e do cérebro apenas o lamento.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Dia cinzento



E o mar está ali, tão perto, cheio, à nossa frente,
e esta pedra invisível que nos amarra à terra
e nos impede de ir mais além
recorda-nos este modo de viver, imutável,
morrendo de insegurança, desfalecendo no atrevimento.

E permanecemos nesta insistência de,
mesmo encalhados,aguardar
que o temporal dos dias
nos destrua os restos da estrutura.

São as horas do nosso Outono.

E a angústia persiste !

E o mar ali tão perto e os olhos a rasgar o horizonte.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Natal



Um novo fruto nasceu num ramo da árvore.
As raizes rejubilaram de alegria
e o poeta, ao espelho, viu
    as lágrimas escorrerem  dos seus olhos sorridentes.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Em jeito de resposta a uma Amiga


Nasce a saudade no abrir dos braços
e a ave da angústia que esvoaça no vazio
faz o ninho no meio do peito.

A tua ausência é uma planta de cacto.
Perene,
trespassa-me em tropismos que dilaceram.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Em memória do meu amigo Guillaume

Elegia

A ténue recordação de tantos rumos
ao olhar este mar
o último dos muitos navegados
deambulando entre o desespero e a esperança.

Por que vagas se ficaram as ilusões
de novas enseadas e novos cais ?
Por que terras nunca aportadas
vaguearam os sonhos deste marinheiro ?

Esburgo o que resta de tanta viagem :
meia dúzia de mãos abertas
algum porto de aconchego e pouco mais.

(Olho do alto da gávea...)

Não acredito que exista algum abrigo
para além desta água.
O derradeiro dos mares sorve-me
e acompanha-me num préstito
de que desconheço a duração.

Aqui ou pouco além tudo acaba,
as imagens desvanecem-se, nada mais é urgente.
Estas águas, como o tempo, apenas vogam
ao sabor de um intento inexorável que as dissipam.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Ainda sobre a Fome


No espaço de três segundos
morrem de fome duas crianças.

Desfalecem silenciosamente;
já nem forças para sofrer
e morrem lentamente.

E eu sei
e sinto uma profunda vergonha
e não consigo dormir
mesmo de olhos fechados.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Ainda sobre a violação dos Direitos Humanos




Esta árvore
bebe a seiva do egoismo
porque enraizada em terra xula.

Terra podre
onde nada mais nascerá
apenas resistirão ramos retorcidos
onde poisam necrófagos.


30.06.05


domingo, 18 de outubro de 2009

Ainda sobre quem luta




Lembra-te das abelhas,
do seu voo de cera e açucar,
que terçam dardos
se o perigo se aproxima.

Em nome do sol que protegem
desconhecem a indiferença.

Nunca se relembra o seu nome..


20.06.2005

quarta-feira, 6 de maio de 2009

6 de Maio




Felicíssima recordação .
Levar-te-ei flores .
Lembrar-me-ei do teu sorriso ternurento
quando te acordava neste dia .


2009

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Retiraste a linha ao horizonte




Mantens-te a querer ser um náufrago no seco leito de um rio.
O teu olhar diz-me que renunciaste.
O teu silêncio diz-me que te resignaste.
O teu corpo diz-me que desististe.
Retiraste, mesmo, a linha ao horizonte.


segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Orgulho




Plantámos três árvores.
E que belas são, que força existe nos seus ramos,
que seiva rica lhes corre nas entranhas.

domingo, 20 de julho de 2008

Natal no Darfour

É noite e as estrelas estão lá em cima.
Uma criança nasce com a morte já estampada nas faces,
como a outra.
Só que não durará trinta e três anos nem
trinta e três dias nem
trinta e três horas;
talvez trinta e três minutos ou
trinta e três segundos ou talvez já nasça morta.

É assim o Natal no Darfour
E as mesmas estrelas estão lá em cima.

sábado, 19 de julho de 2008

Revelação

Porque da árvore das horas já vão caindo as folhas
exorto-vos,
revelando as imagens que aos meus olhos surgem,
a só esperar o amanhecer.

O amanhã será dos frutos das minhas sementes
e dos frutos de todas as outras sementes
que sabem que hão-de gerar raízes.
O tempo será ciclicamente renovado
por mãos que se estendem com dedos de gavinhas
pelos homens e mulheres, árvores de fundas raízes,
que abrem os braços como os ramos
num abraço onde cabe o universo
e vivem em liberdade e – sobretudo - em igualdade,
sem angústias do passado nem da morte inevitável,
que se desprendem e rebentam com os casulos do tempo
numa metamorfose encadeada onde sempre
o fim será o início.

Será o sonho revelado nos meus olhos.
O campo lavrado para a sementeira,
terra revolta com as mãos abertas,
de braços cheios, sem jugo.
As mesmas mãos e os mesmos braços
dos mesmos homens-árvore
e das mesmas mulheres-árvore
e sempre a mesma terra-mãe
onde hão-de pousar as minhas cinzas lançadas ao vento;
porque eu quero fazer parte dessa terra de redenção
e ter a certeza, já, de que terá valido a pena e
que os meus olhos não me enganaram.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Anónimos

Lembra-te das abelhas,
do seu voo de cera e açúcar,
que terçam dardos
se o perigo se aproxima.

Em nome do sol que protegem
desconhecem a indiferença.
Nunca se relembra o seu nome..

Sem nome

Esta árvore
bebe a seiva do egoismo
porque enraizada em terra chula.

Terra podre
onde nada mais nascerá
apenas resistirão ramos retorcidos
onde poisam necrófagos.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Sentimento

O muito que sinto não tem imagem
nem forma mas tem peso
agrilhoa-me o peito
incomoda-me mesmo
quase sempre magoa.

Sonhar a terra livre e insubmissa

E volto aqui sempre que posso, enche-me o peito... E cada vez mais do que nunca...