domingo, 8 de março de 2015

Lançamento do livro "O Exemplo das Árvores"




A apresentação de José do Carmo Francisco

O Exemplo das Árvores”
de Miguel Gomes Coelho


A Poesia não é a voz do Mundo. E talvez nunca tenha sido ao longo do Tempo e da História. Hoje a voz do Mundo é a morte, a escuridão e o esquecimento. Pelo contrário, a Poesia é feita de luz, de vida e de memória. Este livro também. Camilo Castelo Branco escreveu um dia que «A Poesia não tem presente; ou é sonho ou saudade». E vem a propósito lembrar o grande mestre da Literatura Portuguesa nascido em Lisboa na Rua da Rosa em 1825. Se fosse vivo ele comentaria este segundo livro deste autor com uma palavra muito do seu agrado – a palavra cometer. Ora o autor deste livro «cometeu» em 1978 outro livro com o título de «De coração na mão». Ou seja – a Natureza e a Cultura lado a lado, tal acontece como no título deste livro hoje em apreço – «O exemplo das árvores». Na verdade são seis os capítulos deste livro de poemas mas, como acontece nos livros de contos, o autor escolheu um dele para título do conjunto. Neste caso é «O exemplo das árvores» que ocupa as páginas 11 até 18. Vejamos o poema inicial do capítulo: «Seja qual for o destino / do voo das tuas mãos / lembra-te / e pensa maduramente / no exemplo da árvores». Este advérbio de modo («maduramente») surge aqui como valor enfático de uma reflexão. Ao longo dos séculos a Poesia nunca hesitou em chamar as coisas pelos seus nomes mas tem oscilado sempre entre a canção e a reflexão. Neste primeiro capítulo é a reflexão que conta como por exemplo no poema da página 16: «Não li uma linha / nem escrevi uma frase / mas tive um poema nos meus braços / e declamei-o com toda a força do meu silêncio / não fosse alguém quebrar-me o encantamento». Já em «Mar final» a força está na reflexão sobre a viagem que é uma projecção da vida. Começa na página 21 («Porque sempre se cantam as mães /cantemos também a morte / que é a mãe do nada»), percorre a página 23 («Apenas deixarei ficar / um último aceno / ninguém mais se recordará desta barca / ou deste mareante») e conclui na página 25: «Depois lancem as cinzas ao vento / e nele escrevam o epitáfio. / Realiza-se assim o sonho seminal da morte / Nasce a memória, talvez a saudade». A ligação entre esquecimento e morte confirma-se na página 28: «Neste tempo que se liquefaz / e corre célere num túnel de nevoeiro / o único destino é o esquecimento.» O terceiro capítulo é «Com as mãos cheias de gente» permitindo que o poema faça perguntas em voz alta e no colectivo: «De que serviu, então, o passado? De que serviu ter as mãos cheias de gente / e o coração do tamanho do mundo? / De que serviu a promessa jurada de um futuro / inteiro e limpo de braços encadeados / numa marcha segura / o horizonte como destino / olhando em frente?» Noutro poema se escreve o Natal de modo diferente: «É noite e as estrelas estão lá em cima. / Uma criança nasce com a morte já estampada nas faces (…) É assim o Natal no Darfour / e as mesmas estrelas estão lá em cima». Por isso se pensa em Deus pela negativa: «Se Deus existisse / as pedras lançadas em seu nome / transformar-se-iam em água / saravam feridas, purificavam actos; / mas Deus, se existiu, morreu / e não deixou testamento / nem descendência». Em «Transparências» os poemas são breves entre dois e cinco versos, concentrando a canção e a reflexão na mesma temperatura como na página 52: «Nunca abras um espelho / nunca queiras ver o que lhe ficou gravado na memória». O capítulo «Diapositivos» reflecte no seu conjunto de seis andamentos poéticos uma ideia ancorada no título do livro: A Natureza fornece a imagem,a Cultura faz a sua apropriação por escrito e por extenso. A Poesia é um vulcão que ainda não está extinto porque como na página 61 «De uma furna onde / ainda esvoaçam emoções / renasce um tardio rio de lava; / um espanto no entardecer / em que o sol se demora um pouco mais / no aguardar da noite certa». Por fim em «Oldenburg» o livro é uma linha paralela entre em dois poemas – «Nocturno» e «Encontro em Oldenburg». A base é uma promessa («Disseste que me ias trazer mais vida») e o ponto de chegada é um balanço. Dito de outra maneira, trata-se aqui de um inventário qualificado. O poem avisa o destinatário - «Quero ensinar-te tudo o que aprendi e / o que descobri no vogar dos dias» - e mesmo na adversativa para o destinatário- «Vais saber que as lágrimas / não caem só dos olhos» - e também para o autor - «Andar pela vida não é fácil» - o ponto a atingir fica dentro do enunciado do possível: «saber que os homens podem ser / como as árvores». «O exemplo das árvores» que dá título ao presente livro de poemas é o modelo (breve embora) de tudo o que permanece apesar do desgaste e da erosão. Porque as árvores dão aos homens o exemplo vivo e concreto da ligação à terra e ao seu calendário de sementeira trabalhosa e de colheita festiva. Os parvalhões que gritam ao telemóvel o brutal e imperativo «Tázadonde?» nos bancos do autocarro, do eléctrico, do elevador ou do Metro, são a voz do Mundo que fala alto e atropela mas não são a voz da Poesia. Nem nunca serão eles, os que falam alto, essa voz porque o seu som gritado se vai perder muito depressa nas valetas do esquecimento enquanto a Poesia tem e terá sempre os seus leitores, teimosos e heróicos, capazes de a invocar seja no bulício da rua seja no silêncio dos corações. (Edição: Fólio Exemplar, Capa e Paginação: Ana Nunes) --

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por José do Carmo Francisco às 13:49

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Retrato de Manuel Alegre

Alegre   Manuel   alegre até à morte
que lindo nome para um homem triste
que lindo nome para um homem forte.

Alegre   Manuel   despedaçado
pela espada da língua portuguesa:
a palavra saudade   a palavra tristeza
a palavra futuro   a palavra soldado
Alegre   Manuel   aberto cravo
aos ventos da certeza.

Alegre   Manuel   aqui mais ninguém fala
tão alto como tu   ninguém se cala
com essa dor serena e construída
não apenas de versos   mas de vida.

Alegre   Manuel   as línguas do teu canto
ateiam-nos fogo.
Neste lugar de lama e desencanto
tornas vermelho o povo.

José Carlos Ary dos Santos
fotos-grafias
Quadrante - 1970

domingo, 1 de dezembro de 2013

1640, 1º. de Dezembro


É verdade, assumo-me como nacionalista naquilo que é mais importante - a preservação da cultura de um povo.
Conseguimos a nossa independência no Sec. XII, e assim nos mantivemos ao longo da história com um interregno, o filipino, porque culturalmente somos diferentes do povo com que fazemos fronteira.
Mas, no dia de hoje, fundamentalmente no dia de hoje, já depois de ter exaltado, no FB, D. Filipa de Vilhena, a portuguesa mãe que armou aos filhos cavaleiros para que dessem a vida pela Pátria ( nos nossos tempos diriam mais facilmente : Oh, filho, não te metas nisso porque podes arranjar problemas para o teu futuro...), recordo ainda outra mulher, a D. Luísa de Gusmão, que perante a vacilação de D. João de Bragança (o futuro D. João IV) lhe terá afirmado : "Antes rainha por um dia que serva toda a vida...!".
E recordo também as divisões que existiram nas elites do tempo, fundamentalmente na aristocracia portuguesa, em que uns  apoiavam a causa nacional e outros, a melhor recato, se mantinham do lado do ocupante. Nisto certas elites não mudam...
Tal como recordo que após a morte e defenestração de Miguel de Vasconcelos, o representante do poder estrangeiro que dominava o nosso país, foi perguntado à Duquesa de Mântua se queria sair pela porta ou galgar, também, pela janela...
Estamos quase a 4 séculos de distância mas, terrivelmente, continuamos a assistir a situações idênticas.
Migueis de Vasconcelos e Duquesas de Mântua continuam a existir por cá mas conjurados com vontade de mudar a situação, efectivamente, é que parece existirem ainda poucos.
A vontade de descaracterização desta data, porque nacional, levou inclusivamente à perca de categoria de feriado do dia de hoje. Há quem se sinta ufano por afirmar que vivemos em protectorado.
Não estamos, afinal, muito longe de 1640. Necessário é que existam mais fenómenos como o Manuelinho de Évora e apareça um D. Antão de Almada que disponibilize a casa para a conjura.

domingo, 24 de novembro de 2013

Receio

Os cíclicos desaparecimentos de António José Seguro da primeira linha do combate e contestação política ao governo estão a tornar-se cada vez mais comprometedores.
Numa altura de enorme efervescência política o secretário geral do PS prima pela ausência e pela não afirmação política. Anda a fazer sessões de esclarecimento pelas bases do partido, a falar do OE 2014 com o resultado que se verá, ou seja, praticamente, nenhum. Pode, contudo, já estar a trabalhar para o próximo congresso do PS.
Há quem defenda, e eu estou de acordo, que AJS receia que, chegado ao poder, possa vir a ser confrontado com situações idênticas e procedendo desta maneira o faz para não poder ser acusado de ter tomado atitudes de confronto quando era oposição.
A ser assim, só pode ser considerado de uma forma. AJS não se considera à altura para fazer face a contestações populares uma vez no poder e /ou não ter a certeza de as suas opções em matéria política sejam suficientemente abrangentes e necessárias para criar uma plataforma de convergência popular à roda do seu programa e das suas medidas.
Por outro lado, também sabemos que AJS, que em devido tempo retirou apoio e contestou interna e parlamentarmente José Sócrates no fim do consolado deste, mais não fez, de seguida, do que tentar acompanhar o governo do PSD dando-lhe o benefício da dúvida.
O seu desaparecimento de actos públicos relacionados com a esquerda em sentido lato e não só, prenunciam apenas o receio de ser conotado com atitudes mais fortes, abalando o seu sentido táctico com que julga poder arrastar atrás de si aquele eleitorado que gosta de ver um candidato a 1º ministro bem comportadinho e sem se arrogar a atitudes mais "revolucionárias".
Como as coisas estão a caminhar talvez se venha a surpreender.
Alternativas à sua acção só o PS e os seu militantes poderão forjar, até porque, e do mesmo modo, a continuar da forma como se tem posicionado, do Costa não rezará a História.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Grisalhos

Afinal, parece que a geração contemporânea da nossa Revolução de 74, aquela que a promoveu e defendeu, apesar dos 40 anos passados , ainda tem vitalidade para fazer frente ao poder vigente, congregando, à boa maneira do tempo da ditadura, democratas de todas as inspirações apenas com um desígnio: defender a Constituição da República e o Estado de Direito nela plasmado.

Houve um "patetoide" que um dia tentou achincalhar-nos e dividir-nos. Teve ontem a resposta. A "geração grisalha" apesar dos anos passados ainda está presente para defender aquilo que conquistou para o seu país. Uma geração que apenas tem uma pátria que se chama Portugal, que não se chama nem Mercado nem Capital. Uma geração de valores intrínsecos gerados na luta contra um estado autoritário que, parece haver alguns,ainda por ele anseiam. Pobres tristes. Ainda não aprenderam que "Roma não paga a traidores".

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Sir Nicholas Winton - BBC Programme "That's Life" aired in 1988


 
Isto sim, meus amigos, vale uma vida.
 
"Sir Nicholas Winton organizou o resgate e passagem para a Grã-Bretanha de cerca de 669 crianças, na sua maioria provenientes da comunidade judia da Checoslováquia e cujo destino traçado eram os campos de extermínio nazi (no quadro de uma operação conhecida como Czech Kindertransport, ainda antes da segunda guerra mundial).

Depois da guerra, Nicholas Winton não contou a ninguém o sucedido, nem mesmo à sua esposa Grete. Em 1988, meio século mais tarde, Grete encontrou no sótão um álbum de 1939, com todas as fotos das crianças, uma lista completa de nomes, algumas cartas de pais das crianças para Winton e outros documentos. Ela, finalmente, soube da história e aí começou um pequeno e bonito mistério de regresso do bem feito.

O vídeo mostra um aspecto da ocasião organizada para que Sir Nicholas Winton reencontrasse, de surpresa, alguns dos sobreviventes."
(Roubado ao Porfírio Siva)

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Do medo

 
 
Mas só de quem ainda o tiver.
Então, juntemo-nos todos, os que não têm e os que já o tiveram e perderam, e façamos o necessário para mudar a situação.
O verdadeiro poder está, como sempre esteve, em nós desde que o saibamos protagonizar.
Nada é irreversível a não ser a morte e mesmo essa não tem força suficiente para apagar a memória de quem não teve, não tem ou deixou de ter medo.
E nada mais nos pode ser humanamente exigível do que morrer de pé.

domingo, 17 de novembro de 2013

O futuro europeu morreu ontem




Pelo que se vai desenrolando politicamente por essa Europa com a traição aos princípios que construíram o ideal europeu por parte dos partidos que o promoveram ( socialistas/sociais-democratas e democratas-cristãos) nada mais existe do que constatar que o futuro europeu morreu "ontem" e que hoje, para além de olharmos com desprezo para o cadáver, mais não nos resta do que começar de novo, baseados na tradição humanista que nos enforma,  e se necessário recorrer à força para impedir as tendências totalitárias de extrema-direita que se avizinham (Holanda, França, Hungira e não só).

Fomos atraiçoados pelos líderes europeus, pelas organizações políticas e político-partidárias europeias, nos finais do sec.XX e princípio do sec. XXI.

Pouco mais nos resta, se ainda nos resta alguma coisa, que tomar o futuro nas nossas mãos e avançar, apesar dos sacrifícios que possam estar no horizonte, mas caminhando em frente por nós, povos da Europa e fundamentalmente da Europa do Sul, caso contrário seremos certamente engolidos sem apelo nem agravo às mãos de um qualquer autoritarismo e à total supressão das liberdades que conquistámos com tanto esforço e que serão menosprezadas, como sempre sucede, quando os povos se sentem ameaçados na sua segurança e no seu bem estar (?).

O futuro desta Europa morreu. Unamo-nos para construir outro enquanto é tempo.

sábado, 17 de agosto de 2013

A ameaça

Por causa do meu post  que, de forma indirecta, falava sobre o a estátua daquele homenzinho a que tratavam por cónego recebi uma ameaça que, por um questão de decência intelectual, me recusei a publicar como comentário.
Mas fiquei cheio de medo...!
Por isso e agora de outra forma pergunto:
A estátua daquele sacripanta ainda está de pé ?
Beijinhos ao autor da ameaça...

Só num país de anedota

A chamada "Festa do Pontal" veio confirmar. Somos um país de anedota. E porquê ?
Simples !
Só num país de anedota, um governo cripto-fascista, se pode dar à pouca vergonha de, reiteradamente, produzir legislação que sabe, à partida, ser inconstitucional e, mesmo assim, tentar a sua promulgação.
Só num país de anedota porque, se o não fosse, o tal governo cripto-fascista, não durava mais um minuto no poder até pela simples razão de permanentemente afrontar o órgão, por excelência, defensor da constituição e por isso mesmo do regime democrático vigente.
Quem afronta a lei fundamental afronta a legalidade democrática e como tal deve ser banido.
Mas, claro, isso seria num país como deve  ser, democrático, respeitador da Lei, e não neste, um país que é uma anedota...
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