Às nove da manhã, na Ribeira das Naus, o capitão Salgueiro Maia trincou o
lábio - para não chorar; o alferes miliciano Maia Loureiro fez um gesto
instintivo - o "V", com os dedos indicador e médio, que se tornaria um ícone da
revolução. O alferes de óculos escuros Ray Ban, então com 27 anos de idade mas
já uma comissão de serviço em Moçambique, tinha entrado em Lisboa no primeiro
dos dez carros de combate da coluna da Escola Prática de Cavalaria (EPC), logo
atrás do jipe onde seguia o mais famoso dos capitães desse dia 25 de Abril.
Naquela madrugada "onde emergimos da noite e do silêncio", como a definiria a
poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen, o militar de óculos escuros já tinha
respondido do alto da torre da EBR/Panhard, com um sorriso mal disfarçado, à
continência que lhe fizera o chefe da Polícia de Choque, perfilada na Avenida
Fontes Pereira de Melo, antes de ligarem as sirenes com que atravessariam as
principais artérias da capital.
No Terreiro do Paço, local simbólico do poder e destino da missão da EPC no
âmbito da operação Fim do Regime, tinha acompanhado Salgueiro Maia quando o
oficial, lenço branco na mão e prudente granada no bolso, foi parlamentar com o
brigadeiro Junqueira Reis, que comandava uma força com quatro carros de combate
do Regimento de Cavalaria 7, fiel ao regime fascista, e que o oficial superior
dividira entre a Rua Ribeira das Naus e a Rua do Arsenal, que desembocam no
Terreiro do Paço.
Sabe-se que estava previsto prender os comandantes do Regimento de Cavalaria
7 (e também de Lanceiros 2) à saída das suas casas, mas os grupos de comandos
terão falhado os golpes de mão - e estes blindados, mais poderosos que os da
EPC, deviam estar ao serviço do Movimento das Forças Armadas (MFA), prevendo-se
que seriam estacionados na zona do Estádio Nacional. Não foi isso o que sucedeu
e, naqueles longos minutos, entre ordens de Junqueira dos Reis para disparar
sobre Salgueiro Maia e da recusa dos seus homens em atirar contra os camaradas
de armas, decidiu-se o futuro do País.
E seria no momento que a fotografia de Eduardo Gageiro imortalizou que o hoje
coronel Maia Loureiro se convenceu que o 25 de Abril tinha triunfado: o major
Pato Anselmo, botas de cavalaria mas camisola civil, que já tinha sido abordado,
numa primeira tentativa de negociação, pelo miliciano que usava uns óculos Ray
Ban que o acompanhavam desde Marara (Tete - Moçambique), rendera-se; as torres
de dois dos poderosos carros de combate M/47 tinham sido rodadas 180 graus; e os
adversários, como sucederia ao longo da jornada, aderiram ao MFA. "Tive a noção
que tínhamos vencido. Aquele gesto saiu-me. Não pensei no Churchill nem em nada.
Foi espontâneo."
Há outras imagens, ainda no decisivo Terreiro do Paço - de onde fugiriam, por
um buraco na parede das traseiras, os ministros da Guerra e do Exército
(curiosamente, Maia Loureiro tinha sido colega do filho do ministro Luz Cunha no
Liceu Camões), e que chegou a ser um alvo potencial da fragata F-743 -, onde o
alferes do "V" surge em destaque.
Ainda tem o capacete quando aparece junto de um agente da PSP, a quem
Salgueiro Maia ordenara que descongestionasse o trânsito na zona. Ou quando
aparecem os dois motocicletas da polícia à frente de uma viatura com agentes de
capacete, Mauser e baioneta calada que, ao verem o cano de um carro de combate
apontado, saltaram cada qual para seu lado, de tal forma que largavam o
equipamento num jeito que, como definiu Salgueiro Maia e concorda o seu
companheiro de revolução, "parecia uma cena de um filme do Charlot".
Entretanto, conhecida a inesperada ida de Marcelo Caetano para o quartel da
GNR no Carmo (o que estava previsto, em caso de golpe, seria evacuar o chefe do
Governo para Monsanto), a acção confiada à EPC passou a ser cercar o ainda
primeiro-ministro.
Nessa altura, lembra Maia Loureiro, que tinha uma posição privilegiada
naquele périplo militar, sucedeu aquilo que os historiadores podem rotular de
decisiva mudança: a adesão dos lisboetas transformava o golpe de Estado militar
numa revolução popular.
Na Rua Augusta, o sobrinho-neto e afilhado de um outro Maia Loureiro - que
tinha sido fotografado a entrar em Lisboa, no golpe do 28 de Maio de 1926, de
espada em riste e montando um cavalo ao lado de Gomes da Costa - via o delírio
da multidão ao perceber que o regime instaurado pelo seu antepassado iria
acabar. "Gente de todas as idades e feitios, dos engravatadinhos aos que usavam
calças à boca de sino (então na moda), todos a saltar para cima dos carros de
combate e a vitoriar os militares."
No Rossio - onde surgiram os primeiros cravos, mostrando que "uma arma de
guerra podia transformar-se num símbolo de paz", como recorda o militar cujas
primeiras inquietações políticas tinham surgido no ano lectivo de 1965/66,
quando frequentou Medicina -, a unidade do Regimento de Infantaria 1, que ali
estava para lhes impedir a passagem, também se passava para o lado do MFA.
Entre um mar de risos e abraços, subiram a Rua do Carmo. Na estreitíssima
Calçada do Sacramento, também cheia de gente a complicar a marcha dos blindados,
onde nem faltavam peças de museu como os velhinhos Fox (que teve um furo na
portagem da auto-estrada) e Humber (carro para o qual já não havia munições e a
que amarraram uma HK21), talvez Maia Loureiro tenha recordado os meses
anteriores, desde que regressara, em Outubro, de Moçambique, onde estivera,
entre 1971 e 1973, a garantir a protecção às cargas críticas para a construção
da barragem de Cabora Bassa: das conversas mais genéricas com Salgueiro Maia e
outros camaradas até ao dia em que o capitão Correia Bernardo o chamou a ele e
ao alferes Clímaco Pereira à biblioteca e os aliciou a integrarem o MFA.
A sua EBR estacionou no cruzamento entre a Rua Serpa Pinto e a Rua Garrett,
em pleno Chiado, para garantir a protecção daquela entrada para o largo central
das operações - e o vizinho Hotel Borges servia de casa de banho àqueles
soldados, bem pouco cheirosos após tanta hora em acção.
Entretanto, Salgueiro Maia chamava o alferes para o palco definitivo da queda
do fascismo, onde os vizinhos da GNR sugeriam telhados ou varandas para os
atiradores, havia pessoas do chão até às janelas, as velhotas davam comida aos
jovens fardados - "um presunto, decerto desviado por populares de alguma
mercearia da zona, passava de mão em mão".
Já de boina no lugar do capacete com que surgira no Terreiro do Paço, o
alferes miliciano viveu alguns dos momentos que se fixaram para sempre na sua
memória e na História de Portugal. E quando, pelas 17 horas, Salgueiro Maia
pediu ao conhecido oposicionista Francisco Sousa Tavares (futuro deputado do PS
e ministro num governo do PSD) para ajudar a afastar a população, o ombro do
alferes miliciano serviu-lhe de degrau para subir a uma das guaritas da GNR e,
megafone em punho, sugerir à multidão que fosse festejar a liberdade para o
Terreiro do Paço - mas ninguém queria arredar pé dali. De tal forma, recorda
Maia Loureiro, que, uma hora depois, ele próprio seria arrastado para debaixo do
automóvel onde chegava o general Spínola e ao qual estava a tentar escoltar.
Na porta de entrada da instituição cujo distintivo, curiosamente, Maia
Loureiro passaria a trazer na farda a partir de 1993 (quando a Guarda Fiscal,
para onde entrara logo em 1975, foi integrada na GNR), é um dos oficiais que
surgem em cima da Chaimite, quando a Bula avançou à ré até metade da entrada
para retirar os políticos que se tinham rendido - mal viu Marcelo e os outros a
entrarem, mas recorda-se bem dos murros que os populares davam no blindado,
enquanto gritavam "assassino".
E que é feito daqueles óculos Ray Ban, modelo de aviador, tão na moda em
1974? "Só os perdi quando [já coronel da então Guarda Fiscal] embarquei na
primeira lancha de vigilância e intervenção, lançada à água no ano 2000. Ao
virar-me de repente, quando íamos a uns 50 nós [quase 100 quilómetros por hora],
os óculos caíram ao mar." Resta a foto de Eduardo Gageiro.