quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Desfazer equívocos

É de todos conhecido, fundamentalmente dos mais velhos, que antes do 25 de Abril de 1974, quem desejasse aceder a um emprego no Estado tinha de apresentar uma declaração, reconhecida notarialmente, em que repudiava o Comunismo e declarava por sua honra não pertencer a organizações susbversivas que puzessem am causa o regime vigente. Existia outra, um tal mod.566 (?), cujo sentido era o mesmo. Toda a gente as asssinava e ninguém mentia pois, na realidade, poucos eram os portugueses com vida política activa que se encontravam nas situações condenadas por tais declarações.
Não quer dizer que estivessem de acordo com o regime, podiam até interiormente o detestar e desejar o seu fim mas, objectivamente e na prática, cumpriam o declarado.
Existiam, inclusivamente, pressões para que, para obtenção de alguns empregos, os candidatos se filiassem na Legião Portuguesa.Conheci alguns.
Era o tempo em que a "minha política é o trabalho" e do" não me meto em nada porque tenho família".Condenável ? Não ! Ainda hoje existe tanta gente que diz não querer saber da política para nada e que o que lhe interessa é o que leva para casa ao fim do mês.
Mas se o descrito era uma atitude normal em tempos de ditadura há que desfazer equívocos quanto a outras situações: Aquelas, daqueles que mais papistas que o Papa, e no desejo de agradar ou de alcançar mais celeramente os benefícios, reforçavam as suas declarações e ao repúdio de ideologias e organizações que lutavam contra o regime juntavam outras informações, essas já de sua lavra, cientes dos benefícios que tal lhes pudesse vir a trazer.
É aqui que se faz a separação das águas.
Uma coisa eram aquelas declarações que até o próprio regime sabia, que todos estavam,  interiormente, a mentir outra eram aquelas que se destinavam inequívocamente a agradar ao regime.
Mas tudo isto não teria qualquer importância, 36 anos depois de Abril, se as pessoas que passaram por esses tempos considerassem com naturalidade o seu percurso de vida e assumissem os seu actos, quaisquer que eles tenham sido.
Mais grave que a declaração reconhecida no notário e que o mod. 566 (?), é assumir-se uma terrível amnésia com que se deseja fazer esquecer actos passados.
Isso é que causa desconfiança!
Isso é que não é de  cidadão íntegro.
É isso que se está a passar hoje em dia neste país e ao olhos de todos e ainda há quem o desculpe, talvez em alguns casos, também, por repentina e desejável quebra de memória.

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