sábado, 25 de junho de 2011

Arthur Rimbaud


O Dormidor do Vale

            É um poço de verdura onde canta um ribeiro
Arrastando à doida pela erva rasgões
                  De prata; onde o sol, do alto monte sobranceiro,
                  Brilha: é um vale ameno na espuma dos clarões.

     Um jovem soldado, testa ao vento, caída
   A boca, a nuca no agrião azul banhada,
       Dorme; está deitado na terra, sem guarida
     Pálido na verde enxerga de luz molhada.

       Os pés entre os gladíolos. dorme. Sorrindo
       Qual menino doente a sorrir, vai dormindo:
           Dá-lhe aconchego, ó Natureza, que arrefece.

      Nem aos perfumes a narina lhe estremece;
            Dorme ao sol, a mão sobre o peito sossegado.
      Tem dois buracos encarnados, lado a lado.

Outubro de 1870

Arthur Rimbaud - 35 Poemas de
Relógio de Água 1991

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