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1º. Centenário da Implantação da República Portuguesa

"Não se arrancam com facilidade todas as raizes de um regime político sete e meia vezes secular. Caíra quase sem resistência militar, por isso que a fé inabalável de um modesto guarda-marinha, o meu saudoso amigo Machado Santos, soubera sobrepor-se ao momentâneo desânimo e descrença dos seus companheiros de luta mais graduados e ao assomo impotente de reacção de Paiva Couceiro, grande figura de soldado e de português, que apenas se batera pro honore. Mas, pouco a pouco, os monárquicos mais fieis ou mais despeitados foram-se reconpondo da surpresa inicial e deram em fervilhar em actividades conspiratórias, que, depois de inofensivas manobras facilmente debeladas, acabaram por se concretizar num fenómeno emigratório para a vizinha Espanha onde a complacência ou, para falar com mais propriedade, a cumpilicidade dos governos lhes forneceu abrigo e campos de treino fronteiriços, de que partiam para incursões, que redundavam em malogro, se não em fiasco, e para onde regressaram após a derrota com as armas não abandonadas na fuga.
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No entretanto, em dois exercícios consecutivos - os de 1913 e 1914 - Afonso Costa, avocando a si a Pasta das Finanças, conseguira transmudar em "superavit" o crónico "deficit" orçamental, dentro do qual a Monarquia se acostumara a viver, como os peixes se sentem, às mil maravilhas, dentro de água. Fê-lo sem coacções sobre a Nação, sem exageros tributários, que um Parlamento em grande parte hostil lhe não consentiria, quase só por uma mais perfeita ordenação da administração publica e pela consequente compressão das despesas. Duvidaram da autenticidade do fenómeno muitos dos opositores republicanos do notável estadista, isto sem falar nos inimigos da República. Hoje, todos, sem excepção dos situacionistas, reconhecem a veracidade desses "superavits", mas estes últimos não levam a sua sinceridade ao ponto de confessarem que a execução de uma tarefa dessa índole se torna bem mais difícil sem apressão de uma Força Pública inteiramente submetida às directivas dos governantes e sem o auxílio terrorísticvo de uma polícia política carente de escrúpiulos."
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Cunha Leal - CÂNTARO QUE VAI À FONTE... - coisas do tempo presente
Edição de Autor - 1963

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Retrato de Manuel Alegre

Alegre   Manuel   alegre até à morte
que lindo nome para um homem triste
que lindo nome para um homem forte.

Alegre   Manuel   despedaçado
pela espada da língua portuguesa:
a palavra saudade   a palavra tristeza
a palavra futuro   a palavra soldado
Alegre   Manuel   aberto cravo
aos ventos da certeza.

Alegre   Manuel   aqui mais ninguém fala
tão alto como tu   ninguém se cala
com essa dor serena e construída
não apenas de versos   mas de vida.

Alegre   Manuel   as línguas do teu canto
ateiam-nos fogo.
Neste lugar de lama e desencanto
tornas vermelho o povo.

José Carlos Ary dos Santos
fotos-grafias
Quadrante - 1970

Face a um desafio

"Si le hubiera cortado las alas habría sido mío, no habría escapado. Pero así, habría dejado de ser pájaro y yo, yo lo que amaba, era el pájaro."
Joxean Artze.



Pedi-te sempre que não olhasses para trás. Tu sabias que te queria demais, na totalidade, por dentro e por fora, só para mim e sem deixar nem um pouco para ti. Tu existias para que eu existisse queria-te sempre a voar ao meu redor, era eu o teu único destino...
Foi apenas isto que te obriguei a interiorizar por isso , num equívoco, deixei-te esvoaçar e tu não voltaste, seguiste e cumpriste, nem olhaste para trás...
Aí, entendi como era falso... Descobri, já só, que afinal eras tu o meu destino, que te amava por ti e apenas por ti. Descobri que as minhas mãos apenas têm dedos e não tenazese os meus braços apenas abraçam não agrilhoam;
o muito querer nem só tudo aceita, nem só tudo exige, o amar é dar e aprender.
Agora... só, olhando cada dia que nasce, repondo lá longe a linha do horizonte, sejas tu o Sol ou apenas o meu Sol, espero ansiosa…