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Uma noite a pensar em Tom & Jerry

Pois tinha sido um dia bem passado. A Mimi tinha celebrado o seu aniversário. Estávamos todos felizes e assim regressamos a"penates".
Embora ainda não fosse tarde, julgou-se que o mais coerente seria mudar de farpela e acomodar-nos , já de "fato de noite", a assistir a um dos filmes que vão aparecendo no"Cabo".
Mas o pior é que o signatário já não está habituado a jantar de faca e garfo, nem a devorar entradas de "paté", etc., e muito menos ingerir mais um ou dois copos de um magnífico vinho. Daí o João Pestana ter limpo os pés nas sobrancelhas e ter entrado nos meus olhinhos muito mais cedo do que é habitual.
Já estou a ver desenharem-se alguns juízos malévolos... :
-O que o tipo conseguiu foi o princípio de uma bezana !
Nada disso . Simplesmente não tenho ido aos treinos e isso paga-se.
Bom, mas não foi isso que quis relatar, sim, o depois...
Deitadinho e aconchegado, venha a noite a ver se eu tenho medo, adormeci calmamente ( já agora, amigos, sem sentir o tecto a andar à roda).
Duas e meia da manhã !
Poc, poc, poc, poc, cadenciadamente poc, poc, poc...
Acordei, abri semicerradamente um olhito e tentei descobrir donde vinha tal ruído.
Nada, e, poc, poc, poc, etc. e poc.
Levantei-me e comecei à procura do origem do barulhito que me tinha acordado. De ouvido em riste, não me vais escapar malandro, lá encontrei a razão de todo o mal:
Uma infiltração de água da chuva por cima da caixa do estore. E poc, poc, poc.
Quis verificar os danos e a origem do som e descobri para meu desagrado que os pingos que caíam, insistentemente, o faziam em cima da caixa da minha colónia D&G.
Oh, sacrilégio dos sacrilégios! , mas daí aquele som cavo do poc, poc, poc.
Apesar de meio adormecido arranjei as devidas forças e lá afastei o móvel. Era impossível colmatar, àquela hora, a fissura donde provinha a água. E o poc, poc, poc, passou.
Voltei para a caminha, o quarto de novo em sossego, silêncio absoluto, que bom vou voltar a dormir.
Puro engano ! Passados uns minutos, o João Pestana ainda não tinha voltado, nem sequer a limpar os pés nas sobrancelhas, e pic, pic, pic, e mais pic.
O chão estava começar a ficar cheio de água. Pôr um balde não resultava porque voltava ao início, colocar um pano que absorvesse a água só resultaria enquanto não tivesse encharcado, e o líquido caía cada vez com mais rapidez. Não dava para por uma rolha. Que fazer ?
Foi aí que me lembrei de um desenho animado da minha infância, do Tom & Jerry, em que o pobre do gato passava pelo mesmo transe, se bem que, aí, o tormento fosse acrescido pelas diabruras do rato.
Como tinha acabado a história ?
O gato não tinha dormido, estava estoirado, os olhos raiados de vermelho.
Pensei para mim, já perto das cinco da manhã, que não ia acabar como o felino, portanto, levantei-me, fechei as portas todas, e fui para a sala, tapei-me com a mantinha e esperei que a noite se fizesse dia, a meio dormir, porque tinha de me levantar cedo.
Mas nem o rato, nem o poc, poc, nem o pic, pic, tinham vencido.
Passei uma dura prova mas, na realidade, estou perdido de sono.

Comentários

Mlee disse…
Ou seja, para além da ressaca, hoje está perdido de sono ...
hahahahahahaha
Anônimo disse…
Porque é que colocaste nao pano dentro do balde? Assim tinham acabado os pocs e os pics, o pano encharcava mas ficava tudo dentro do recipiente.

E agora o pior vai ser o plim, plim, plim, ou seja, o barulho das moedas a cairem...
Se calhar nao, como tu és todo maozinhas, vais resolver o problema com um canivete suíco e um arame, nao é?

Beijinhos e boa sorte
Mipa

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