Pular para o conteúdo principal

Cantina parlamentar



Bifes à João Semedo:

Tomem-se dois bifes, que podem ser de carne de vaca ou de porco ou de outro animal qualquer, porque tal não tem qualquer importância, desde que o cozinheiro lhe chame bifes.
Não devem ser muito grandes nem pequenos, tanto faz, nem grossos nem finos, talvez médios, mas também não tem qualquer importância.
Temperem-se, muito ou pouco, ao gosto, ou não se lhes coloque tempero nenhum, não é importante.
Pegue-se numa frigideira, numa chapa, numa caçarola ou qualquer outro recipiente, não importa qual, porque também é indiferente.
Coloque-se no seu interior uma qualquer besuntice e deixe-se aquecer em lume brando.
Quando a besuntice estiver à temperatura adequada coloquem-se os ditos bifes e deixem-se fritar o quanto baste de ambos os lados.A meio desta operação pergunte-se ao cozinheiro do lado se quer juntar qualquer coisa, pouco importa o que seja, natas, iogurte, vinho, muito ou pouco tanto faz, açucar, ah, e é verdade, marmelada, muita marmelada, fica bem neste cozinhado, e limão ou mesmo vinagre para azedar.
Quando chegar ao ponto que se ache conveniente pode-se então envolver com outros ingredientes, que tenham chegado à cozinha, entretanto, mesmo que os canones culinários não aconselhem a sua utilização, também pouco importa. Mas não esquecer.marmelada, muita !
Acompanhe-se com o que estiver à mão, ou mesmo não se acompanhe com nada, porque já não se vai distinguir o sabor do que quer que seja, nem importa se ainda se julgue que se começou o cozinhado com bifes.
Serve-se como se quiser ou de maneira nenhuma ou mesmo em cima de uma folha de papel pardo já que de seguida ninguém vai conseguir comer a mistela e o caminho mais natural é seguir para o caixote do lixo.
Uma boa receita que ninguém vai conseguir tragar, a que só o cozinheiro chama bifes, porque foi o que congeminou antes de entrar na cozinha, com um custo bem elevado e que não ficará nos anais pantagruélicos.
A não repetir...

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sonhar a terra livre e insubmissa

E volto aqui sempre que posso, enche-me o peito...
E cada vez mais do que nunca...

Retrato de Manuel Alegre

Alegre   Manuel   alegre até à morte
que lindo nome para um homem triste
que lindo nome para um homem forte.

Alegre   Manuel   despedaçado
pela espada da língua portuguesa:
a palavra saudade   a palavra tristeza
a palavra futuro   a palavra soldado
Alegre   Manuel   aberto cravo
aos ventos da certeza.

Alegre   Manuel   aqui mais ninguém fala
tão alto como tu   ninguém se cala
com essa dor serena e construída
não apenas de versos   mas de vida.

Alegre   Manuel   as línguas do teu canto
ateiam-nos fogo.
Neste lugar de lama e desencanto
tornas vermelho o povo.

José Carlos Ary dos Santos
fotos-grafias
Quadrante - 1970

Face a um desafio

"Si le hubiera cortado las alas habría sido mío, no habría escapado. Pero así, habría dejado de ser pájaro y yo, yo lo que amaba, era el pájaro."
Joxean Artze.



Pedi-te sempre que não olhasses para trás. Tu sabias que te queria demais, na totalidade, por dentro e por fora, só para mim e sem deixar nem um pouco para ti. Tu existias para que eu existisse queria-te sempre a voar ao meu redor, era eu o teu único destino...
Foi apenas isto que te obriguei a interiorizar por isso , num equívoco, deixei-te esvoaçar e tu não voltaste, seguiste e cumpriste, nem olhaste para trás...
Aí, entendi como era falso... Descobri, já só, que afinal eras tu o meu destino, que te amava por ti e apenas por ti. Descobri que as minhas mãos apenas têm dedos e não tenazese os meus braços apenas abraçam não agrilhoam;
o muito querer nem só tudo aceita, nem só tudo exige, o amar é dar e aprender.
Agora... só, olhando cada dia que nasce, repondo lá longe a linha do horizonte, sejas tu o Sol ou apenas o meu Sol, espero ansiosa…