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"O casamento nada tem a ver com os afectos"

Perante esta frase, ontem lançada no Prós e Contras, lembrei-me dos três versos finais de um soneto de Pablo Neruda

"Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
   nascem e morrem tanta vez enquanto vivem,
   são eternos como é a natureza."

(Pablo Neruda- Antologia Breve-Cem sonetos de Amor-XLVIII)

Comentários

Centopeia disse…
Poema abstracto


Circunspecto, o Sr. Pablo pintor

assimila um verso do Sr. Pablo poeta:

Dois amantes felizes não têm fim nem morte.

Em frente da tela traça uns traços com raiva

e um ror de linhas paralelas e contorcidas

e uma catadupa de delirantes pinceladas.

Dá-lhes luz e movimentos sem nexo.

O pintor recua extenuado e relê o verso.


Os corpos foram desenhados em dois tempos.

Têm as mãos e as pernas e os braços enlaçados,

têm olhos e nariz e boca e até sorriem

mas são rostos subtilmente quadrados.


O poeta, em frente da tela, teria dito:

o amor é uma amálgama de cubos.
Agradeço-lhe muito o poema que me enviou.
Como deve ter entendido também eu, de quando em vez, enveredo por essa forma de expressão, com as devidas proporções, é claro.
Quanto ao poema, de que gostei bastante, é um bom retrato da vertigem que é o acto de criar. Seria o mesmo se fosse o poeta a "ler" a tela do pintor; a vertígem é a mesma, chega a ser sofrimento.

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