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Das coisas que eu muito gosto




NÃO AO SOERGUER APENAS O MEU PEITO

Não ao soerguer apenas o meu peito,
Nem com suspiros, à noite, numa raiva de insatisfação comigo mesmo,
Nem com aqueles longos e mal reprimidos suspiros,
Nem com muitas juras e promessas quebradas,
Nem com a minha vontade de alma selvagem e obstinada,
Nem com o subtil alimento do ar,
Nem com este pulsar e bater nas minhas têmporas e pulsos,
Nem com estas curiosas sístoles e diástoles que um dia hão-de terminar,
Nem com tantos ávidos desejos confessados apenas aos céus,
Nem com gritos, risos, desafios lançados por mim quando estou só e longe do deserto,
Ñem com roucas palpitações por entre os dentes cerrados,
Nem com palavras pronunciadas e proclamadas, palavras estridentes, ecos, palavras mortas,
Nem com os murmúrios dos meus sonhos enquanto durmo,
Nem com os outros murmúrios destes incríveis sonhos de cada dia,
Nem com os membros e sentidos do meu corpo que vos trazem e afastam continuamente - nem aí,
Nem com um ou todos eles, ó atracção ! Ó pulso da minha vida !
Necessito que existas e te mostres mais do que nestas canções.

Walt Whitman - Folhas de Erva - Cálamo - Ed. Relógio d'Água, 2002

Comentários

Ana Paula Sena disse…
Olá, Miguel :)

Gosto imenso da poesia de Walt Whitman. Mas este poema não conhecia. É magnífico! (o que conheço melhor é o "Canto de mim mesmo")

:) ... eu diria que o Miguel tem muito bom gosto.

Aproveito para lhe desejar um Natal muito feliz, para si e toda a família.

Um grande abraço
Olá, Ana Paula Belo, :-))
Agradeço-lhe a indicação do bom gosto.
O Walt Whitman apareceu-me por via do Pessoa assim como a "Poética" do Alan Poe.
E fiquei "cliente"...
Um grande abraço também para si e os desejos de poder continuar a merecer as suas importantes críticas.
Bom Natal.
Muito bom, Miguel.
Mais um daqueles que tiram o fôlego.
Um abraço e Feliz Natal:)
Maria Josefa,
Feliz Natal também para si e que o novo ano lhe traga o que mais deseja.
Espero, igualmente, continuar a contar com as suas palavras assim como os seus desafios.
Quanto ao "fôlego", continuemos com as nossos exercícios de descoberta, para mantermos a forma. :-)
Um abraço.
poematar disse…
Ótpimo teres aparecido com W. Whitman. Também o conheci pelo Pessoa. É o pai do que se escreve a partir da poesia moderna. Poeta poderoso. Tudo de bom. Saudáveis renovações, que é assim que eu passo a dizer nesta época.
Manuela Araújo disse…
Olá Miguel
Passei por aqui para desejar um feliz Natal, sobretudo com a companhia daqueles que são mais queridos, com muita alegria e amizade, e sem esquecer a solidariedade para com os que mais precisam.
Um abraço
Poematar,
mais uma vez obrigado pela visita.
Estes meus postes celebram a poesia tal como o seu blogue de que muito gosto.
Que tenha um saudável renovação...
Um abraço.
Manuela Araújo,
obrigado pelos votos.
Desejo-lhe, também, tudo de bom e a força necessária para a luta que um blogue como o seu a obriga.
Quanto a solidariedade, mantemos a obra, e já sabe que com "Vermelho" pode contar.
Um abraço.

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E volto aqui sempre que posso, enche-me o peito...
E cada vez mais do que nunca...

Retrato de Manuel Alegre

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que lindo nome para um homem triste
que lindo nome para um homem forte.

Alegre   Manuel   despedaçado
pela espada da língua portuguesa:
a palavra saudade   a palavra tristeza
a palavra futuro   a palavra soldado
Alegre   Manuel   aberto cravo
aos ventos da certeza.

Alegre   Manuel   aqui mais ninguém fala
tão alto como tu   ninguém se cala
com essa dor serena e construída
não apenas de versos   mas de vida.

Alegre   Manuel   as línguas do teu canto
ateiam-nos fogo.
Neste lugar de lama e desencanto
tornas vermelho o povo.

José Carlos Ary dos Santos
fotos-grafias
Quadrante - 1970

Face a um desafio

"Si le hubiera cortado las alas habría sido mío, no habría escapado. Pero así, habría dejado de ser pájaro y yo, yo lo que amaba, era el pájaro."
Joxean Artze.



Pedi-te sempre que não olhasses para trás. Tu sabias que te queria demais, na totalidade, por dentro e por fora, só para mim e sem deixar nem um pouco para ti. Tu existias para que eu existisse queria-te sempre a voar ao meu redor, era eu o teu único destino...
Foi apenas isto que te obriguei a interiorizar por isso , num equívoco, deixei-te esvoaçar e tu não voltaste, seguiste e cumpriste, nem olhaste para trás...
Aí, entendi como era falso... Descobri, já só, que afinal eras tu o meu destino, que te amava por ti e apenas por ti. Descobri que as minhas mãos apenas têm dedos e não tenazese os meus braços apenas abraçam não agrilhoam;
o muito querer nem só tudo aceita, nem só tudo exige, o amar é dar e aprender.
Agora... só, olhando cada dia que nasce, repondo lá longe a linha do horizonte, sejas tu o Sol ou apenas o meu Sol, espero ansiosa…