Pular para o conteúdo principal

Noite de Natal, de António Feijó


(A um pequenito vendedor de jornais)

Bairro elegante, - e que miséria !
Roto e faminto, à luz sidéria,
O pequenito adormeceu ...

Morto de frio e de cansaço,
As mãos no seio, erguido o braço
Sobre os jornais que não vendeu.

A noite é fria; e a geada cresta,
em cada casa sinais de festa !
E o pobrezinho não tem lar ...

Todas as portas já cerradas !
Ó almas puras, bem formadas,
Vede as estrelas a chorar !

Morto de frio e de cansaço,
As mãos no seio, erguido o braço
sobre os jornais que não vendeu .

Em plena rua, que miséria !
Roto e faminto, à luz sidéria,
O pequenito adormeceu ...

Em torno dele - ó luz sagrada !
Ao ver um círculo sem geada
Na sua morna exaltação,

Pensei se o frio descaroável
Do pequenino miserável
Teria mágoa e compaixão ...

Sonha talvez, pobre inocente !
Ao frio, à neve, ao luar mordente,
Com o presépio de Belém ...

Do céu azul, às horas mortas,
Nossa Senhora abriu-lhe as portas
E aos orfãozinhos sem ninguém ...

E todo o céu se lhe apresenta
Numa grande árvore que ostenta
Coisas de um vivido esplendor,

Onde Jesus, o Deus menino,
Ao som de um cântico divino
Colhe as estrelas do Senhor ...

E o pequenino extasiado
Naquele sonho iluminado
De tantas coisas mortais,

- No céu azul, pobre criança !
Pensa talvez, cheio de esperança
Vender melhor jornais.


Perguntar-me-ão o porquê deste post ?
A razão é extremamente simples.
O Natal é na minha família uma tradição de fortes raízes .
Para mim é, sobretudo, uma festa de família e para a família.
Não tenho com o Natal qualquer relação religiosa.
Mas, e porque nisto sou um tradicionalista, e cumpro a tradição familiar vinda da minha meninice, e, creiam, sempre a cumpri até hoje, faço as decorações em casa e preparo-a para os filhos, e agora para os netos, com o entusiasmo de sempre.
Nas minhas decorações de Natal aparece sempre, desde que dele tomei conhecimento, já há muitos anos, um livro - Cancioneiro do Natal Português - da autoria de Azinhal Nabeiro, edição de 1964, páginas 44/45. Nelas consta o poema que acima transcrevo, da autoria do poeta parnasiano António Feijó - 1859-1917.
No meu Natal penso sempre nos "pequenos vendedores de jornais" deste mundo; e ali está o livro em lugar em destaque para que todos o leiam e pensem.
Estamos a 24 dias, pensemos pois...

Comentários

Obrigada Miguel por este poema, nestes tempos de consumismo e indiferença.
Um abraço.
Anônimo disse…
Sim obrigada paizinho.
Dá mesmo que pensar e repensar.

"A bola encarnada tem que ser mais à esquerda...., nao mais para cima, mais para baixo..!"
Leonor disse…
É um poema lindooooo e já conhecido de outras paragens.
Estamos a 24 dias sim Senhor e este ano, não sei se a mesa vai chegar!
hahahahahaha


beijukas
mdsol,

obrigado pelo :)

Saudações.
Maria Josefa,

Está fora de época na forma mas é actual, com as devidas proporções,
no conteúdo.
É só para obrigar a pensar...
Um abraço.
Mipa,
a dança da árvore é no próximo fim de semana.
Bjs.
Leonor,
pois já o conhecias.
Mas vale a pena relembrar nos dias de hoje.
Quanto à mesa .....

Bjs.

Postagens mais visitadas deste blog

Sonhar a terra livre e insubmissa

E volto aqui sempre que posso, enche-me o peito...
E cada vez mais do que nunca...

Retrato de Manuel Alegre

Alegre   Manuel   alegre até à morte
que lindo nome para um homem triste
que lindo nome para um homem forte.

Alegre   Manuel   despedaçado
pela espada da língua portuguesa:
a palavra saudade   a palavra tristeza
a palavra futuro   a palavra soldado
Alegre   Manuel   aberto cravo
aos ventos da certeza.

Alegre   Manuel   aqui mais ninguém fala
tão alto como tu   ninguém se cala
com essa dor serena e construída
não apenas de versos   mas de vida.

Alegre   Manuel   as línguas do teu canto
ateiam-nos fogo.
Neste lugar de lama e desencanto
tornas vermelho o povo.

José Carlos Ary dos Santos
fotos-grafias
Quadrante - 1970

Face a um desafio

"Si le hubiera cortado las alas habría sido mío, no habría escapado. Pero así, habría dejado de ser pájaro y yo, yo lo que amaba, era el pájaro."
Joxean Artze.



Pedi-te sempre que não olhasses para trás. Tu sabias que te queria demais, na totalidade, por dentro e por fora, só para mim e sem deixar nem um pouco para ti. Tu existias para que eu existisse queria-te sempre a voar ao meu redor, era eu o teu único destino...
Foi apenas isto que te obriguei a interiorizar por isso , num equívoco, deixei-te esvoaçar e tu não voltaste, seguiste e cumpriste, nem olhaste para trás...
Aí, entendi como era falso... Descobri, já só, que afinal eras tu o meu destino, que te amava por ti e apenas por ti. Descobri que as minhas mãos apenas têm dedos e não tenazese os meus braços apenas abraçam não agrilhoam;
o muito querer nem só tudo aceita, nem só tudo exige, o amar é dar e aprender.
Agora... só, olhando cada dia que nasce, repondo lá longe a linha do horizonte, sejas tu o Sol ou apenas o meu Sol, espero ansiosa…